terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Coletiva / Coletivos



Por Armando Sobral
O Museu Casa das 11 Janelas, a Galeria Theodoro Braga e o Atelier do Porto promovem um amplo circuito de exposições e debates sobre a gravura contemporânea brasileira, a partir da produção local e de diversos coletivos que atuam em São Paulo.
A parceria reflete a posição madura de artistas, curadores e gestores em compreender que instâncias de natureza pública e movimentos independentes podem atuar lado a lado.
Coletiva/Coletivos surpreende pela beleza e diversidade, além de proporcionar um quadro vivo e dinâmico do movimento da gravura, hoje, no Brasil. 
Não deixem de ir!!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Duo Very Well / Projeto XiloMambembe no Porto do Sal e no Arte Pará


Por Véronique Isabelle  
"O Porto do Sal está localizado no bairro Cidade Velha, arrabalde mais antigo da cidade de Belém, à margem das construções patrimoniais e da intensa paisagem insular da baía de Guajará. 
O Porto do Sal é um universo complexo que concentra em si várias realidades características da cidade, além de possuir uma forte relação com a pesca artesanal e com as culturas ribeirinhas da região que transitam nele. Esse lugar cultiva a ambigüidade fundamental dos portos: entre a terra e a água, as idas e vindas cotidianas das pessoas, o dia colorido e intenso, a noite escura e perigosa.
Nos dias de semana – dependendo da direção do vento - predomina no fundo do ar do Porto do Sal o cheiro do café torrado que provém da fabrica de café Lider, situada no lado do Mercado. Um cheiro bom substituído no final de semana pelo da carne assada e macerada no cominho e no alho do churrasco do Dinho.
O Mercado do Porto do Sal, que fica no final da Rua Gurupá, é um lindo prédio com seus detalhes de flores de cardo inseridos na sua arquitetura de estilo mauro e torna-se a principal porta de entrada (pela terra) na comunidade. O Mercado, inaugurado pelo então Governador Magalhães Barata em 1933, servia para a comercialização do Peixe Salgado que na época, era beneficiado em Belém.
Tem sempre água parada na vala em frente do mercado, onde bebem os cachorros do porto. Na entrada do mercado sentam homens num banco de madeira, taxistas e outros, que acompanham as idas e vindas das pessoas. Atravessando primeiramente uma mistura estranha de odores compostos de alho, frutas quentes e verduras com o cheiro da gordura rançosa que impregnou a pedra do balcão do açougue; do sangue da carne pendurada; dos ovos fritos e da criolina. O movimento lento das pessoas ondula entre os diversos “boxes” que abrigam os comerciantes que vendem produtos comuns, comidas, bebidas, alimentos; e também a vendedora do jogo do bicho, o cabeleireiro e o reparador de relógios.
O tempo muda quando atravesso o mercado, penetramos num outro ambiente ruidoso e denso, marcado pelas batidas de martelo no ferro e pelo ritmo frenético do tecnobrega. O que era a ponte principal do Porto do Sal - e a continuação do Mercado - foi pouco a pouco enterrado. Os boxes antigos onde se vendia o peixe salgado, os alimentos e as mercadorias se tornaram bares e fábricas diversas que trabalham principalmente com o metal. O som surdo da água que batia por baixo da ponte até o mercado foi substituído pelo das máquinas roendo o metal e por gritos diversos dos trabalhadores, das crianças, das mulheres... 
As várias pontes (sete) que compõem a paisagem do Porto do Sal têm todas um dono e um clima próprio em relação às atividades portuárias que acolhem em diferentes ritmos. Tem barcos de vários tamanhos, que viajam nos interiores para fazer comércio e trazer passageiros ou ainda barcos de pesca. Pertence a essa paisagem o som surdo dos carrinhos que carregam o peso das mercadorias e andam nos trilhos até os barcos para viajar; os passos das pessoas que ressonam nas madeiras da ponte; o sopro do vento quente na baia; o ruído dos motores de barcos; o cheiro da madeira da ponte no sol, das redes para pescar que ainda carregam o cheiro do peixe e da água salgada.
O intervalo irregular entre as tábuas de madeira que cobrem as pontes e a sombra que produzem na água; as infinitas cordas nos barcos; as hastes, as redes de pesca; ritmos (ir)regulares e repetidos dos gestos dos carregadores, dos marceneiros, dos homens que tecem as redes, inscrevem um tempo na paisagem.
Os corpos são construídos pelo trabalho; posso reconhecer os pescadores ao ver as mãos calejadas, grossas e duras deles da manipulação das redes pesadas. É um universo predominantemente masculino. Tem o cheiro do suor, da pele. O uso bruto das cores contrastantes e vivas dos barcos, das casas de madeira, do acúmulo de peças de barco, das diferentes texturas encontradas se mistura criando uma visualidade rica e intensa. Não se procura uma harmonização estável, a estética segue uma necessidade, uma funcionalidade. O acúmulo de detritos e de restos: de madeira, de plástico, de metal, isopor e cordas têm uma potencialidade de uso. Não se tornam lixos. A ordem não está associada à estabilidade das coisas, mas resulta num dinamismo: o caos gera novas ordens. A instabilidade da paisagem pela sua constante transformação acha seu equilibro no movimento. 
Finalmente, a maré também impõe seu ritmo. Quando enche, domina o som da água batendo na estrutura da ponte e os barcos retomam seus balanços e quando seca, os barcos descansam e revela-se uma paisagem de lama ocre, cor de rio, onde a terra e a água se confundem numa coisa só. Neste húmus rico onde brotam as historias do lugar, revelam-se os fragmentes de memória dos barqueiros, dos moradores e dos viajantes."                                                                  
                                                                                               



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Vento Norte



Por Armando Sobral

Esta coletiva celebra conquistas significativas: faz dez anos que um grupo determinado de artistas e estudantes universitários reuniu-se para criar um atelier público de gravura em Belém, motivado pela necessidade de praticar e ensinar essa modalidade artística para adultos, jovens e adolescentes, na sua grande maioria de baixa renda ou provenientes de escolas públicas. Tem sido um tempo de construção em que a Galeria Gravura Brasileira esteve aberta a esse esforço e acolheu a produção que começava a chegar daquele ponto longínquo. Desse movimento inicial aos dias de hoje completa-se um ciclo importante de preparação e de permanência do trabalho com a criação do coletivo Atelier do Porto.
A gravura na região amazônica destaca-se com a produção que surge na última década no estado do Pará, principalmente em Belém. O que não significa validar sua importância somente a partir desse período; seria uma injustiça com Valdir Sarubbi, Ronaldo Moraes Rêgo e Jocatos, grandes artistas responsáveis em manter viva essa tradição. Foi o surgimento de uma nova geração de excelentes gravadores preocupados em trabalhar de maneira colaborativa e em diálogo com a tradição da gravura brasileira, reconhecendo-a e integrando-se a ela, que talvez tenha sido a maior contribuição de todos esses anos de persistência – anos, diga-se de passagem, ainda germinais.
De fato, podemos assegurar que existe uma gravura na Amazônia capaz de afirmar-se no cenário contemporâneo - os trabalhos falam por si. Contudo, vale a pena penetrar um pouco mais nas obras presentes e perceber os desafios impostos aos métodos de trabalho com a gravura em metal verificados, por exemplo, em Elaine Arruda, Pablo Mufarrej e Ronaldo Moraes Rêgo; as expansões que definem outros campos da linguagem com o emprego das novas mídias - limites explorados nas estampas numéricas de Alexandre Sequeira e Véronique Isabelle - e a liberdade como Jocatos e Eliene Tenório incorporam signos identificados com o universo feminino e suburbano, sem perder de vista as qualidades que são peculiares ao meio gráfico.
As obras presentes trazem o vento úmido e contaminado dos portos do Norte, que nos alimentam por séculos com sinais vivos da ancestralidade. Lugar, este, sentido e compartilhado.



terça-feira, 18 de outubro de 2011

Lugar Indeterminado, desenhos e gravuras na Elf Galeria

Mãe, carvão sobre papel

a perda . a memória . o espanto

Por Armando Sobral 
A paisagem e o tempo permeiam esta série de gravuras e desenhos, imagens recolhidas ao longo de anos em que as perdas, a memória e o espanto deixaram seus sinais.
A motivação em reunir esses trabalhos partiu, por mais estranho que possa parecer, da experiência com a fotografia: o flagrante de uma chuva torrencial sobre a baía, quando retornava de Soure em um momento de perda profunda. Lembro que fiz a foto em 98 e, a partir de 2002, comecei a desenhar esta mesma imagem inúmeras vezes - um circunlóquio interminável. Porque registrei aquele momento é uma resposta que não alcanço; simplesmente a vontade de recordar me leva continuamente a essas representações. Talvez seja a chuva mais intensa e demorada que tive e que, certamente, terei; então, decidi dar o titulo de “Mãe” a essa água que não cessa.
Anos antes, em 2005, tinha levado alguns desenhos pequenos da tal fotografia para fazer litografias em uma residência artística que participei na cidade de Amsterdam. Notei que as planícies e o céu baixo daquele país europeu eram muito parecidos com os de Belém, e determinei como junção desses dois lugares a tênue linha imaginária do horizonte. Belém / Amsterdam é esse desejo onde todos os lugares são possíveis e só em Borges eles se consumam.
 Na estrada que aproxima Marabá de Parauapebas não há flores - o que em outras palavras desejo dizer, não encontrei esperança. Resolvi eu mesmo criar um jardim de flores contaminadas pela cobiça e referir-me àquela paisagem como o avesso da utopia, como metáfora de uma beleza doentia.
A representação tem o seu próprio sistema e mundo à parte. De concreto, somente esses sinais - ainda que confusos e fragmentados.

Aguardo vocês na Elf Galeria neste sábado, dia 22 de outubro, às 11h00.
A exposição fica até 30 de novembro.



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A gravura paraense representada na Bienal de Sarcelles, França

Pablo, Tanguy, Christelle e Véronique no Atelier do Porto

Elaine e Tanguy 

Por Armando Sobral
Em junho o Atelier do Porto recebeu a delegação da Bienal de Gravura de Sarcelles, Mr. Tanguy e Christelle Jaffelin. O encontro selou a participação de cinco artistas paraenses na Bienal que este ano terá o Brasil como país homenageado, são eles: Armando Sobral, Elaine Arruda, Pablo Mufarrej, Eliene Tenório e Jocatos. 
Além da Bienal, um grupo maior de artistas paraenses estará participando da coletiva de gravura brasileira e francesa na bibliothèque de Lyon 2, organizada por Christelle Jaffelin.
Quando recebermos a programação e imagens dos eventos compartilharemos aqui com vocês.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Traços Locais, Armando Sobral e Marcone Moreira



Por Jussara Derenji, Diretora do Museu da UFPa
Há no Museu da UFPa uma vocação de abrigar arte contemporânea, talvez não suspeitável no prédio centenário e histórico do Palacete Montenegro. O envolvimento da própria Universidade, desde os anos 60, na implantação da moderna no norte do país é o primeiro indício de um caminho que iria ser tomado pelo Museu ao ser criado em 1983. O acervo que foi sendo formado, com as dificuldades inerentes aos organismos públicos de cultura, é hoje direcionado para pensar e discutir, questionar e propor arte contemporânea.
Recém entrados no século XXI temos já clareza sobre os valores que deverão nortear a memória do século passado e agimos, assim, dentro do papel no qual nós escolhemos inserir, o da guarda, pesquisa e divulgação desses valores e de seus representantes nas artes visuais da Amazônia. O projeto lançado neste momento, por iniciativa do artista Armando sobral, e que o tem como iniciador e participe, junto com Marcone Moreira, consolida um movimento de apoio não só ao Museu, mas a esta memória pela qual nos tornamos todos responsáveis.
O programa de exposições e doações proposto em Traços Locais representa um reconhecimento da importância dos Museus como lugar da salvaguarda, da discussão e do questionamento. O museu da UFPa tem orgulho em receber dos artistas da terra, como muito bem representam Armando Sobral e Marcone Moreira, a manifestação deste reconhecimento.

Miragem Urbana, fotografias de Pedro Cunha



Por Alexandre Sequeira
Como um flâneur contemporâneo, que com passos lentos e sem direção, observa tipos e lugares que cruza em seu caminho, Pedro Cunha percorre os espaços urbanos na busca por pontos de vista que articulem objetos e planos de diferentes procedências. Suas fotografias revelam uma paisagem complexa, ambígua, composta por acúmulos de informações onde transeuntes se confundem com displays publicitários, automóveis, prédios, luzes e sombras, justapondo, como fotomontagens, elementos de proporções desconcertantes.
Com apurado senso estético, o fotografo garimpa as superfícies profusamente ocupadas das metrópoles – paradigmas da saturação. Suas escolhas, na maioria das vezes, evidenciam o urbano como território de fragmentação, tanto dos espaços quanto das relações sociais que aí se manifestam, apontando para nítidos sinais de sua dominação pelo poder do mercado, da mídia.
Miragem Urbana é assim um convite á reflexão sobre a cidade não apenas como espaço concreto, mas também como espaço simbólico e como dispositivo comunicativo critico e emancipativo, ao destacar da indistinção de nossas cenas cotidianas recortes capazes de resignificar nossa experiência com o lugar que habitamos.

 Veja o site da Kamara Kó Galeria